26 de dez. de 2006

Rôo, rôo, rôo...

Remôo, rumino, repenso, relembro, re- sempre.
Natal é lembrar, não? Lembrar o que não vivemos em Belém, tentar esquecer o que vivemos, enfeitar qual pinheiro de plástico as memórias com noites idílicas jamais acontecidas. Ignorando ou talvez provocando o conselho amigo de não fazer do blog meu divã, faço-o catarse... Pra quê tê-lo senão? Rsrsrsrsrs...
Natais antigos, os mais antigos, são enevoados, irreais, lindos... Cheiro de vó, papel de presente rasgado, carrinhos embaixo da cama na manhã risonha da mãe e tio, Missa... Os da segunda infância cada vez mais doloridos pela percepção da realidade, e os da adolescência foram meio que deletados da memória, pela carga tétrica que continham. Os de hoje, marcados pela morte, são de uma nostalgia silente dos primeiros.
A presença cansada e dorminhoca do Menino é fio condutor destes todos... Este último, foi com Ele só. Claro que o Casillero del Diablo marcou presença, e Palmira esteve enquanto pode, mas fomos só nós dois, desde a tarde até de manhã... Menino fragmentado na comunhão (missa cheia, sabe? Emblemático...), partido e repartido na família cada vez mais diáspora, aconchegado em meu gélido inverno interior.
Mas Ele está lá... Sempre... Dormindo, por ora, mas lá, inefável, impassível, inegável.
Amo-o, mais que a tudo, mais que a mim...

"Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é."
Fernando Pessoa

Pra terminar, uma de minha músicas preferidas, que sem dúvida será executada nas minhas exéquias!
O Sonho, de Madredeus.