
De repente da calma fez-se o vento
De repente, não mais que de repente
Fez-se do amigo próximo o distante
Reminiscências de alhures, pensamentos esparsos, intermitências de alma... Se você sabe quem sou, reconhecerá. Se não, descubra.

Um dos desejos paulistanos satisfeitos: há anos queria ver uma montagem do Antunes, o legendário. Pois bem, fui, vi e amei... teatro de verdade, daqueles de marcar a vida. A Companhia Macunaíma e o CPT (Centro de Pesquisas Teatrais, dirigido pelo Antunes) encenam esta obra de Ariano Suassuna numa montagem moderna e envolvente, brasileira e eterna. A verborragia de Suassuna encontra um teatro flexível e amoldado à sua lírica sertaneja, de modo a contar a história de maneira a fazer sentir a leitura do texto do mestre.
O próprio Ariano derrete-se: "Se dissessem a mim: -Toda a sua obra vai ser destruída, você só tem o direito de fazer escapar uma'', eu faria escapar A Pedra do Reino, porque foi onde eu me expressei de maneira menos incompleta. De tudo que escrevi, A Pedra do Reino é o que mais expressa o meu universo interior". A história de Dom Diniz, pobre bibliotecário suscedâneo da verdadeira realeza brasileira e mestiça leva ao calor da Paraíba da época de João Pessoa, do Estado Novo de Getúlio, do romantismo do início do século passado nos rincões do interior e até das pretéritas ilusões sebastianistas. A singeleza das personagens, a força da roda da história, a brasilidade enfim, tudo faz deste espetáculo um verdadeiro Memorial, tal qual o título da obra sela.
Recomendo vivamente aos viajantes, e aos amigos de Brasília boas novas: não resisti perguntar sobre a excursão, e descobri que irá à Capital. Sem medo: Antunes faz teatro pro povo, preço populares garantidos.
Genial. Ri de doer, de verdade: passei mal na sala... O falso documentário do segundo maior repórter da gloriosa nação do Cazaquistão nos U.S and A. foi um dos filmes mais hilários que já vi em toda minha vida. Exagero? Não: o humor é daqueles que me deliciam. Por exemplo, odiei todos aqueles Todo mundo em pânico... Sarcasmo, humor negro, vexame, tudo o que há de mais politicamente incorreto num filme você encontrará em Borat. Mas obviamente isto não basta para chamá-lo de genial. O que torna este filme delicioso é a carga de ironia sobre o american way of life que ele certeiramente destila. Cohen, o humorista judeu-britânico por trás do personagem, consegue o improvável: faz os americanos médios reconhecerem sua profunda estupidez ao verem-se. Quero crer que esta comédia rica em inteligência fará mais pensantes questionadores na terra dos sonhos que o fraco Crash, oscarizado ano passado.
Recomendação: vão ver com os amigos mais sarcásticos disponíveis na praça... Se for com gente burra, você vai passar raiva.
Nota: cognomeei o filme de Ensaio sobre a vergonha parafraseando Saramago sem dó nem humildade porque seu humor reside basicamente nisto: expôr uma vergonha até as raias do intolerável, do risível. E este irrefreável! Delícia de filme!

Baseado nas Noites de Cabíria do Fellinni, o musical de Cláudia Raia, magistralmente dirigido por Charles Müller e Cláudio Botelho enche os olhos de qualquer um. A produção é impecável e até surpreendente aos olhos provincianos deste candango: figurinos, cenários, acompanhamento de quase big band, tudo de mais fino... Contudo, sempre há um contudo...
