28 de fev. de 2007


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

23 de fev. de 2007

Por estas noites e dias...

Bem, muito tempo sem escrever, muita coisa pra atualizar da minha odisséia na paulicéia desvairada!!! Conforme prometido antes da jornada, resenharei as coisas legais que vir por aqui... Por ordem:


A Pedra do Reino


Um dos desejos paulistanos satisfeitos: há anos queria ver uma montagem do Antunes, o legendário. Pois bem, fui, vi e amei... teatro de verdade, daqueles de marcar a vida. A Companhia Macunaíma e o CPT (Centro de Pesquisas Teatrais, dirigido pelo Antunes) encenam esta obra de Ariano Suassuna numa montagem moderna e envolvente, brasileira e eterna. A verborragia de Suassuna encontra um teatro flexível e amoldado à sua lírica sertaneja, de modo a contar a história de maneira a fazer sentir a leitura do texto do mestre.
O próprio Ariano derrete-se: "Se dissessem a mim: -Toda a sua obra vai ser destruída, você só tem o direito de fazer escapar uma'', eu faria escapar A Pedra do Reino, porque foi onde eu me expressei de maneira menos incompleta. De tudo que escrevi, A Pedra do Reino é o que mais expressa o meu universo interior". A história de Dom Diniz, pobre bibliotecário suscedâneo da verdadeira realeza brasileira e mestiça leva ao calor da Paraíba da época de João Pessoa, do Estado Novo de Getúlio, do romantismo do início do século passado nos rincões do interior e até das pretéritas ilusões sebastianistas. A singeleza das personagens, a força da roda da história, a brasilidade enfim, tudo faz deste espetáculo um verdadeiro Memorial, tal qual o título da obra sela.
Recomendo vivamente aos viajantes, e aos amigos de Brasília boas novas: não resisti perguntar sobre a excursão, e descobri que irá à Capital. Sem medo: Antunes faz teatro pro povo, preço populares garantidos.

Borat
(ou Ensaio sobre a vergonha)


Genial. Ri de doer, de verdade: passei mal na sala... O falso documentário do segundo maior repórter da gloriosa nação do Cazaquistão nos U.S and A. foi um dos filmes mais hilários que já vi em toda minha vida. Exagero? Não: o humor é daqueles que me deliciam. Por exemplo, odiei todos aqueles Todo mundo em pânico... Sarcasmo, humor negro, vexame, tudo o que há de mais politicamente incorreto num filme você encontrará em Borat. Mas obviamente isto não basta para chamá-lo de genial. O que torna este filme delicioso é a carga de ironia sobre o american way of life que ele certeiramente destila. Cohen, o humorista judeu-britânico por trás do personagem, consegue o improvável: faz os americanos médios reconhecerem sua profunda estupidez ao verem-se. Quero crer que esta comédia rica em inteligência fará mais pensantes questionadores na terra dos sonhos que o fraco Crash, oscarizado ano passado.
Recomendação: vão ver com os amigos mais sarcásticos disponíveis na praça... Se for com gente burra, você vai passar raiva.
Nota: cognomeei o filme de Ensaio sobre a vergonha parafraseando Saramago sem dó nem humildade porque seu humor reside basicamente nisto: expôr uma vergonha até as raias do intolerável, do risível. E este irrefreável! Delícia de filme!

A Rainha
(ou A Majestade de uma real Atriz)


Confesso que fui sem pretensão alguma ver este filme. Tinha lido umas coisas desfavoráveis acerca, tais como: “Parece filme da HBO!” (parece mesmo), “A imobilidade das locações reduz o filme” (mentira, está a serviço dele), “É uma invencionice pra redimir a Rainha...” (humpf!). Situei-me logo na primeira tomada: ao olhar para os espectadores, Ellen Mirren (Elizabeth II) diz tudo com o olhar, como que diz “Sou a Inglaterra, quem sois?”, altiva, não arrogante; majestosa no personagem e na interpretação.
O pudor do diretor (inglês) ao filmar sua soberana num dos períodos mais conturbados de seu reinado, a morte de Lady Di, diz muito do poder e imutabilidade da instituição Família Real sobre seus súditos. O filme é impiedoso com todos, até com a finada, mas respeita até as lágrimas da protagonista, não mostradas numa das seqüências mais belas que já vi. Tony Blair, Charles, o Príncipe consorte, a morta: todos são coadjuvantes que levantam a bola que a magnífica Mirren corta tão bem neste longa que é uma ode à arte de interpretar. A contemporaneidade seria um risco, mas o roteiro bem amarrado, a fotografia impecável, atuações certeiras e, claro, um gênio na direção, garantem um filme extremamente elegante ao versar sobre uma das mais atrozes cicatrizes inglesas, a morte da Princesa de Gales.
Este recomendo sem dó: vão ver mesmo! Curioso: depois dele não consigo mais lembrar do rosto verdadeiro da Rainha! Só me vem a fabulosa atriz em mente...

DreamGirls

O oscarizável nunca caminhou tão de perto com o dúbio.
Explico: a película tem suas grandes qualidades, mas pensa comigo, as indicações puramente técnicas que recebeu para o Oscar já denunciam uma frouxidão que chega a incomodar até o cinéfilo mais paciente. Musical de sucesso na Broadway transposto pra telona, exibe nas suas longas quase 3 horas a história das Supremes, o grupo que lançou Diana Ross. Com problemas sérios de corte e edição, denotados pelo ótimo Pablo Villaça (http://www.cinemaemcena.com.br/) em sua imperdível resenha (como todas as outras, recomendo), DreamGirls cansa quem não é ardoroso fã de soul music, confunde os mais atentos e aporrinha quem queria ver a história como ela é (ou foi)... Rende-se ao final feliz... Eca!
Mas sempre há um mas...
Kate Hudson.
Candidata perdedora do American Idol, a bunita na sua primeira atuação conquistou a indicação para Melhor Atriz Coadjuvante. Poupo os comentários resumindo-os: se você gosta de cantoras que são forte na interpretação das canções (Ave Bethânia!), vá ver correndo!!! Ela garante delícias insuspeitas neste festival de erros cinematográficos.
Sweet Charity
Baseado nas Noites de Cabíria do Fellinni, o musical de Cláudia Raia, magistralmente dirigido por Charles Müller e Cláudio Botelho enche os olhos de qualquer um. A produção é impecável e até surpreendente aos olhos provincianos deste candango: figurinos, cenários, acompanhamento de quase big band, tudo de mais fino... Contudo, sempre há um contudo...
O enredo de Broadway é formatado demais pra um expectador mais exigente em termos dramáticos, e um espetáculo feito para uma diva carrega em si as limitações de sua estrela. Raia é ótima atriz, cativante mesmo, mas cantar realmente não é forte da mulé. Suprida devidamente nesta lacuna pelo elenco de apoio, é quase embaçada no seu reinado pelo brilhante Marcelo Médici (o gago Fladson, lembra?), que de tão bom só aparece no último terço do musical para não receber o maior cachê da montagem...
Recomendação? Vá como eu, se ganhar o convite!!! Porque se aqui gira em torno dos preços normais de Brasília, quando chegar por lá será preço de NY mesmo... Se não for mesmo, vale saber a frase fatal do texto, aquela que me arrebatou: ao desistir de casar com Charity, Oscar sentencia: “Case comigo e vou destruir você!”. “Tá bom pra mim”, ela responde, “Não sou lá grande coisa mesmo”... O ardor de uma alma que busca durante toda sua vida alguém para amar sobrepuja até o mais que devido desejo de ser amado... Belo, poético, puramente fellinniano...

Até mais! E mais, e mais, e mais!!!

Bises

13 de fev. de 2007

Vertigo




Essa sensação, essa brisa... Fria, no rosto: não canso disso. Meio que fetiche, a cada cidade que visito procuro tê-la novamente: Corcovado, Torre, Prédio do Banespa, Rampa de vôo livre, até Arpoador. Não é à toa que escolho os apartamentos mais altos para morar: se um dia me vence a vontade, alço vôo... Mas sou um pré-suicida frustrado, a porra da esperança sempre se apresenta. Por mais que eu tente fugir dela, está lá, me atazanando na hora do passo.

2 de fev. de 2007

Espelho, espelho meu...


O maior espetáculo da terra é o meu eu.
Estou descobrindo isto: o movimento íntimo do humor é melhor que qualquer entretenimento externo. É acordar em torpor, imaginando um dia horrível, e tomar um belo banho morno que revigora até moribundo, e sair do banho perfumando até a alma na expectativa do novo e urgente viver.
São Paulo tem me surpreendido neste aspecto. O silêncio da casa nova, como casulo de seda nova, meio que range, meio que desinstala. A falta das muletas familiares de Brasília tem me lançado na boca de cena de meu teatro romano interior: tragédias gregas, épicos bélicos, romances idílicos, até teatro-realidade se descortinam na cena do eu. E, obviamente, o grotesco e o bufo não faltam no programa.
Há duas semanas fui assistir à peça Euetheía, [do grego, loucura], baseado no Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam. O gozado foi que tinha uma expectativa boa em relação à peça, supondo eu que conheceria mais do famoso texto... Mas bah, qual nada, o espetáculo fez jus ao título: através da in-conexão do personagem, fui levado à experiência insã, ao devaneio simples e instintivo, dos gritinhos histéricos e cômicos aos grunhidos mais doloridos que se possa emitir, naquela dor de se saber eternamente só na existência, mesmo que a idéia de saber-se contradiga insanidade (será?)... Só, em meio ao palco, via-me naquele ator sério, de pesquisa e tudo mais, que decide falsear a loucura, apresentá-la aos outros, mostrá-la, exibí-la, como que dizendo: “Ei, isso é loucura, viu? Com L maiúsculo!”; mas que no fundo se compraz em exteriorizar o que há anos carrega, comprazendo-se na agressão que isso representa, mas disfarçando-o com nome de arte. Mas toda arte verdadeira não é isso? Ops, anacolutia...
O que colho destas reflexões? Que a intuição brotada na faculdade de Direito de que eu preciso olhar o mundo pelas lentes da Filosofia é certeira... E olha que legal: minha quarentena acadêmica de um semestre coincide com a conclusão das obras de uma faculdade de filosofia que fica na esquina da minha casa! Coincidência, não? Rsrsrsrsrs...
Outra: a provocação da arte só me faz bem... Desde a terapia, pois creio tanto nisso que faço psicodrama, até minha compulsão por cinema/teatro/música/espetáculo, um dos principais vetores da minha escolha por esta cidade... E, apesar do descompasso do meu contra-cheque com as bilheterias, estou me deliciando!!!
Fazer desse cotidiano tesouro é desafio... A síntese, para mim, é tão controvertida quanto estatística de televisão: uns dizem que sou um primor, outros vêem que sou péssimo... Aí já vai uma dica... Rsrsrsrs...
Bises...