
Sete razões para ler Clarice
1. Sua literatura é instigante.
Aliás, a própria Clarice afirmava que escrevia para saber o que estava, na verdade, querendo dizer. E isso ela passa para o seu leitor. Através dessas tentativas ou desses ensaios de escrever, o leitor deixa-se levar por uma espécie de exercício de experimentação da linguagem que o joga, sem garantia, no inusitado. Daí uma segunda razão.
2. Sua literatura é perigosa.
Isto é, o leitor a certa altura se surpreende em estado de risco, ou, se quiserem, de crise, já atado incondicionalmente a uma outra realidade, que é, ao mesmo tempo, sedutoramente encantadora e terrivelmente repulsiva. Daí uma terceira razão.
3. Sua literatura é ameaçadora.
A qualquer momento, sem aviso, pode-se estar diante da truculência dessa coisa, que paradoxalmente une, num só momento, o mais abjeto e o mais sublime. Assim se manifesta a condição humana - soma de virtudes e defeitos. Daí uma quarta razão.
4. Sua literatura é desconfortável.
Pois como lidar com o lado abjeto sem nojo e repulsa? Essa marca, de feição existencialista já tão discutida pela crítica, implica na corajosa vontade de explorar a própria intimidade, mas exaustivamente, até o seu núcleo ou seu âmago. Daí uma quinta razão.
5. Sua literatura é desmitificadora.
Ao mirar de frente o objeto, desvestindo-o dos invólucros de sentido impostos pela cultura, derrubam-se valores, princípios, normas, regras, costumes cristalizados. Daí uma sexta razão.
6. Sua literatura é transgressora.
Não é gratuito haver tantos crimes nessa literatura que inclui também, entre outros gêneros, o policial. Desmontando o instituído é que se vive a própria selvageria. Se a realidade não deixa, o imaginário ficcional salva. E o leitor encontra reforço às suas próprias perversões. Não se passa imune a tais apelos, do mais requintado sadismo ou masoquismo. Mas neste percurso é que se desvenda a dimensão humana do outro. Daí a sétima e última razão.
7. Sua literatura é social.
Por um caminho supostamente íntimo - enxergar o outro de si mesmo - essa literatura enxerga o outro socialmente configurado - o miserável, o pobre, o excluído - que precisa escapar de tal condição, pelo grito indignado.
