Eu nego. Nunca admitiria tal coisa. Veja só! Pensar que em sã consciência eu ataria minha própria mãe e sairia feliz para a vida, deixando-a lá, à mercê do bem querer divino?Loucos é o que vocês todos são, todos vocês!
Não conseguem nem imaginar a tortura que me acomete a cada vez que relembro a minha chegada em casa, quando achei mamãe naquele estado, naquele aspecto. Quando chamava por ela sem resposta, já estranhando a casa sem movimentos, perpassou-me um calafrio de pressentimento ruim, que na mesma hora, como todos vocês sabem ser meu costume, comecei a apegar-me à Virgem... Não vi nenhuma das negrinhas da casa, vocês todos fora, só o olhar de papai a se compadecer de mim na pintura da sala. Fui subindo e quando entrei em seu quarto e a vi por detrás, os gatos a escalar-lhe as espáduas, as mãos, oh Senhor Piedoso, as mãos! Desculpem-me. Mas é que estavam rictas, cinzentas, as unhas lascadas de arranhar o encosto de jacarandá, os pulsos roxos sob as cordas. Desfaleci, mas amparada pela Virgem contive-me e corri a gritar-lhe: Mamãe! Mamãe! Sabem todos que só a deixei depois que Everardo chegou. O bom cristão ajudou-me a colocá-la em seu leito enquanto as negrinhas correram a chamar Doutor Serrado e a vocês.
Muito me agride este olhar que vocês insistem em me dirigir. Até porque nenhum de vocês aqui ficou neste anos de convalescença de mamãe, e até nestes últimos meses de senilidade nenhum de vocês ousou telefonar uma única vez para saber se ela precisava de uma pílula sequer. Agora vem com estes cochichos, estas insinuações tortas, esta frieza ante minha dor.
Sabem de uma coisa: eu odeio todos vocês. Odeio de verdade, o bom Senhor que me perdoe este pecado. Essa ternura fingida que vocês insistem em dramatizar uns para com os outros me enoja. Saibam que ao bom Jesus ninguém engana! E se há culpados na morte de mamãe, além do verme que a atou, culpável é a indiferença que devotaram a ela. Agora, sejam pelo menos cristãos ao buscar dirigir o sentimento de justiça que eu espero que esteja nos corações de vocês na diligência para achar o negro Paulo, aquele bastardo, que tenho certeza foi quem cometeu esta atrocidade com nossa mamãezinha.
Está de bom tamanho? Devo dizer algo mais?
Pois bem, acho que basta. Seria perfeito se a desgraçada não tivesse escrito meu nome em sua mão antes de envenenar-lhe. Infernos!
