Pour Aline.Ela não sabia bem como lidar com aquilo. Há pouco, sua única preocupação seria o que jantar, que roupa vestir amanhã... e agora? Como afrontar esta situação? Na solidão de seu fim de noite, imperceptivelmente ela foi levada até ali... Seu coche? Uma taça de um fresco branco chileno, nada excepcional, apropriado para uma terça à noite. Após o banho morno, aconchegada na sua cama de anos, foi traída! Raptada, e agora vitalmente torturada por ele, que tão convincentemente a tapeou com sua aparência frágil, palavreado rápido, simples, até palatável à primeira vista. Mas àquela altura, já completamente submetida a ele, percebia seu engano. Estava condenada a responder a tudo quanto ele lhe propunha, suportando a altiva indiferença de suas resposta para ele, mas que determinariam o destino dela mesma. Incansável, infatigável, ele prosseguia impingir-lhe aquela agonia d’alma, não sem a aquiescência mal disfarçada com que ela lhe sorvia as palavras. Estava começado o jogo: sem querer sair dali, via-se forçada por um não-sei-quê seu mesmo a prosseguir, sem atentar para a própria sanidade. Ele, impassível, prosseguia a golpeá-la, ora dolorosa, ora calidamente: era seu mister, sua forma de perpetuar-se na vida. Ela consentia nisso, mesmo afligida, mas interiormente sacudida como nunca antes, começara a ver-se naquele jogo, e o que via a surpreendia cada vez mais, impedindo qualquer tentativa de fim sem o êxtase que ela entrevia.
E realmente surpreendida entre atos ela refletia naquele portuguezinho franzino que a enlevava agora. Franzino, macambúzio mesmo, quase feio... Mas como ele lhe dissera, quisera ele parecer-se por fora como era interiormente, sentimento que por anos era indizível nela mesma. Identificação? Talvez, mas o sentimento de iluminação era maior, ver-se sem véus como ele a via, perceber-se como ele se percebia, era mais forte que o incômodo de cega em primeira aurora. Mesmo sentido o corpo já condoer-se neste jogo, era-lhe impossível parar naquele momento, mesmo com a hora avançando a madrugada, que ela sabia cobraria seu preço no dia seguinte.
Então, subitamente, ele a deixa assim, sem respostas. Um grunhido incalável lhe atravessa na noite já findando, uma convulsão sem precedentes a toma por inteiro, e nem cama nem vinho podem agora levá-la ao destino primeiro. Vencida, pôe-se de pé para inquirir o porquê disso logo agora. No pequeno apartamento, suas perguntas não encontram respostas; sua voz só encontra a gata sonolenta sob a mesa, que contempla a dona doidivana que vagueia antes da alba, sem noção de como voltar a si. Maldita a hora em que lhe cedi aos encantos singelos, a sua fala mansa, cantada, profunda, gutural mesmo... E agora? Que faço? Dormir é-me impossível. Sair? Onde iria? Beber? Mais embriagada não consigo. Mas como calar o rumor que aquela voz ainda reverbera em si? Num ímpeto, tomou-o novamente, e lançado-o ao fundo do fundo de uma gaveta intocada, deixou-o lá, na esperança que a distância da vista minorasse seu tormento. E prometeu para si, ao ouvir seu despertador que trinava o CD favorito da Peyroux, que jamais compraria outro pocket book de Fernando Pessoa.
