24 de jan. de 2007

Mais estranho que nós




Acabei de ver “Mais estranho que a ficção”. Impossível fugir à reflexão que me assola desde a saída da sala: Somos donos de nós? Quanto o somos, se é que o somos? Uma comédia pra gente que pensa, a história de Harold desenrola-se num crescendo que inevitavelmente põe-nos diante de um questionamento desses... Impertinente para uns, pura arte para outros, inadiável para todos: pensar-se assim é pensar na completude da vida, da seqüência (nem sempre) lógica de atos que constituem nossa história, e na inevitabilidade do “The End”, apesar de todas as fracassadas tentativas de seqüência que uns pretendem ter... Morrer é digitar o inexorável*: o ponto final mais negro que se possa ter. Sem prescindir dos papos de céu, pois recebe-se na colheita o que se semeia no vale de lágrimas, assim reza o catecismo. Para os agnósticos, que dispensem a frase anterior, e deleitem-se com sua vitória metafísica: a não-transcendência... (mas isso já é tema pra outro post. Anacolutia!) Não pretendo aqui fazer crítica de cinema, mas tecer meus viperinos comentários, mordazes mas assertivos. Se ouso tocar em temas técnicos não o faço como expert, que não sou, mas em termos que qualquer filho de Caim pode entender.
O filme é sem dúvida remetente à outros títulos, tais como Show de Trumman, Brilho Eterno..., Efeito Borboleta, Adaptação e a primeira metade de Amélie Poulain. Mas a direção segura, um roteiro que não se perde e ainda consegue bons momentos, e atuações precisas (destaques para Will Ferrell, que sempre odiei e Emma Thompson que sempre amei; e negativo para uma Queen Latifah apagada), fazem deste filme do cinemão uma boa pedida para um cineminha de semana, ou um DVD num dia que se queira pensar. Não vou queimar o roteiro, só queria comentar o seguinte: a interrelação entre literatura e vida, que é o mote deste filme, é algo que me atinge na boca do estômago, e nos últimos meses parece que é com um gancho de direita bem colocado. A possibilidade que a escritora vive, de ver sua cria diante de si, nada mais é que o desejo de ver-se diferentemente, e estupefaz a constatação que a cria é muito mais ela mesma que todo esforço que fez para esconder-se. E assim somos com as crias que parimos na vida, em especial os filhos pródigos. Por cria entenda emoções, relacionamentos, atitudes, posturas... A fotografia meio plastificada endossa a sensação de ficção, mas a esperteza de não diferencia-la nas seqüências da autora faz pensar na unidade que citei. Atenção para os coadjuvantes: atuação brilhante até do relógio.

Finalizo com uma página do Eduardo Galeano, nos seu simpático Livro dos Abraços**:

Um homem dos vinhedos falou, em agonia, junto ao ouvido de Marcela. Antes de
morrer, revelou a ela o segredo: - A uva – sussurrou – é feita de
vinho. Marcela Pérez-Silva me contou isso, e eu pensei: se a uva é feita de
vinho, talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é.

Bises.


* : Putz, isso dá um epitáfio legal pra operador de telemarketing...
** : Special thanks for Kessiane, Aline & Tati.