2 de fev. de 2007

Espelho, espelho meu...


O maior espetáculo da terra é o meu eu.
Estou descobrindo isto: o movimento íntimo do humor é melhor que qualquer entretenimento externo. É acordar em torpor, imaginando um dia horrível, e tomar um belo banho morno que revigora até moribundo, e sair do banho perfumando até a alma na expectativa do novo e urgente viver.
São Paulo tem me surpreendido neste aspecto. O silêncio da casa nova, como casulo de seda nova, meio que range, meio que desinstala. A falta das muletas familiares de Brasília tem me lançado na boca de cena de meu teatro romano interior: tragédias gregas, épicos bélicos, romances idílicos, até teatro-realidade se descortinam na cena do eu. E, obviamente, o grotesco e o bufo não faltam no programa.
Há duas semanas fui assistir à peça Euetheía, [do grego, loucura], baseado no Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam. O gozado foi que tinha uma expectativa boa em relação à peça, supondo eu que conheceria mais do famoso texto... Mas bah, qual nada, o espetáculo fez jus ao título: através da in-conexão do personagem, fui levado à experiência insã, ao devaneio simples e instintivo, dos gritinhos histéricos e cômicos aos grunhidos mais doloridos que se possa emitir, naquela dor de se saber eternamente só na existência, mesmo que a idéia de saber-se contradiga insanidade (será?)... Só, em meio ao palco, via-me naquele ator sério, de pesquisa e tudo mais, que decide falsear a loucura, apresentá-la aos outros, mostrá-la, exibí-la, como que dizendo: “Ei, isso é loucura, viu? Com L maiúsculo!”; mas que no fundo se compraz em exteriorizar o que há anos carrega, comprazendo-se na agressão que isso representa, mas disfarçando-o com nome de arte. Mas toda arte verdadeira não é isso? Ops, anacolutia...
O que colho destas reflexões? Que a intuição brotada na faculdade de Direito de que eu preciso olhar o mundo pelas lentes da Filosofia é certeira... E olha que legal: minha quarentena acadêmica de um semestre coincide com a conclusão das obras de uma faculdade de filosofia que fica na esquina da minha casa! Coincidência, não? Rsrsrsrsrs...
Outra: a provocação da arte só me faz bem... Desde a terapia, pois creio tanto nisso que faço psicodrama, até minha compulsão por cinema/teatro/música/espetáculo, um dos principais vetores da minha escolha por esta cidade... E, apesar do descompasso do meu contra-cheque com as bilheterias, estou me deliciando!!!
Fazer desse cotidiano tesouro é desafio... A síntese, para mim, é tão controvertida quanto estatística de televisão: uns dizem que sou um primor, outros vêem que sou péssimo... Aí já vai uma dica... Rsrsrsrs...
Bises...